Por que as pessoas gostam de filmes de terror?

Sentir medo, ficar apavorado, gritar e, por vezes, nem conseguir dormir depois de assistir a uma história baseada em suspense, mortes e recheada de cenas sangrentas. E ainda pagar para passar por essa experiência. Milhares de pessoas fazem isso em todo o planeta repetidamente.

Os filmes de terror são um dos ramos da indústria cinematográfica que mais arrecadam e frequentemente colocam seus lançamentos na lista dos campeões de público. "O Exorcista", um dos títulos mais conhecidos do gênero, arrecadou mais de US$ 200 milhões apenas nas bilheterias dos cinemas. O faturamento de "O Sexto Sentido" ficou na casa de US$ 300 milhões.

Para Stephen King, enredo serve como teste para adultos

Escritor de livros de suspense e terror, alguns deles adaptados para o cinema, Stephen King publicou um ensaio tentando explicar as razões pelas quais as pessoas deixam sua zona de conforto para viver uma experiência assustadora. "Nós gostamos de provar a nós mesmos que podemos lidar com isso," diz ele em seu texto "Por que buscamos filmes de terror". "Isso nos tira das zonas cinzentas de nosso período adulto e nos devolve para o preto e branco de nossa infância. Podemos permitir que nossas emoções cavalguem sem que fiquemos puxando a rédea ou que sequer exista uma rédea."

Alguns estudos científicos foram feitos a respeito e mostram uma diferença na forma de encarar os filmes de terror de acordo com a faixa etária das pessoas que assistem os enredos, especialmente as crianças, que não conseguem diferenciar os fatos exibidos na tela da realidade. Por isso, são mais suscetíveis a ter problemas ao serem expostas a esse tipo de roteiro, incluindo pesadelos, crises de ansiedade e podendo, inclusive, desenvolver comportamento agressivos.

Adultos buscam o perigo, mas com rede de segurança

Já os adultos e adolescentes conseguiriam fazer a distinção clara entre a ficção e a vida real. Por isso, gostam de buscar o sentimento do medo no cinema uma vez que sabem que, no fundo, não estão em nenhum perigo real. Essa é a conclusão do decano da faculdade de Ciências Sociais e Ciência do Comportamento da Universidade de Utah (Estados Unidos), David Rudd, que conduziu estudos relativos aos filmes de terror.

"Eles entendem que o o verdadeiro risco destas atividades é marginal. E devido a essa consciência subjacente, experimentam emoção ao invés de medo real. É por isso que as pessoas gostam de ir a parque de diversões e passeios por casas assombradas", disse Rudd.

A conclusão do professor norte-americano é endossada por seu colega de profissão que dá aulas de psicologia social e organizacional na Universidade de Utrech, na Holanda, Jeffey Goldstein. Ele editou o trabalho "Why We Watch: The Attractions of Violent Entertainment" ( Porque nós assistimos: os atrativos do entretenimento violento).

"As pessoas assistem filmes de terror porque querem sentir medo. Ou então não iriam duas vezes", afirmou. "Você escolhe o entretenimento porque quer que ele o afete. As pessoas que vão para produtos como filmes de terror buscam efeitos grandes. Eles querem isso."

Filme é ficção, mas medo é real, diz professor de comunicação

Apesar de o público conseguir fazer, ao menos conscientemente, a diferenciação entre mundo real e ficção ao assistir um filme de terror, o medo que sentem quando um ser híbrido com machado persegue uma mocinha inocente no meio da floresta é de verdade. "O cérebro não se adaptou à nova tecnologia (dos filmes)," assegura Glenn Sparks, professor de comunicação da Universidade de Purdue (Estados Unidos).

É por essa razão que, segundo ele, o coração dos expectadores dispara, as mãos começam a suar, a temperatura corporal cai, os músculos ficam tensos e até mesmo a pressão arterial tende a aumentar enquanto as pessoas assistem a um filme desse tipo. "Nós podemos dizer a nós mesmos que as imagens na tela não são reais, mas, emocionalmente, nosso cérebro reage como se elas fossem. O nosso velho cérebro ainda rege nossas reações."

Joanne Cantor, diretora do centro de Pesquisa de Comunicação da Universidade de Madison, questiona o bom gosto das pessoas que deixam suas casas para assistir um filme de terror. "A maioria das pessoas gostaria de experimentar emoções agradáveis. Sem dúvida, há algo realmente poderoso que traz as pessoas para assistir a essas coisas, porque não é lógico."

Sparks atribui essa atração a um ritual tribal de passagem, uma vez que quanto mais medo sentem durante o filme, mais as pessoas dizem gostar da película. "Há uma motivação que os machos têm em nossa cultura para dominar situações ameaçadoras. Ele vai voltar para os ritos de iniciação dos nossos antepassados ​​tribais, onde a entrada para a idade adulta foi associado com dificuldades. Perdemos isso na sociedade moderna. E podemos ter encontrado formas de substituí-lo em nossas preferências de entretenimento."