Por que algumas pessoas são tímidas?

Ninguém escolhe ser uma pessoa tímida. Essa característica é própria de cada um e mais comum do que se possa imaginar. Estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Stony Brook, de Nova York, da Universidade Southwest, na China, e da Academia Chinesa de Ciências, feito a partir da observação comportamental e de imagens do cérebro de pessoas extrovertidas e introvertidas mostrou que um em cada cinco indivíduos pode ser considerado tímido.

O nome técnico dado pelos cientistas para as pessoas tímidas é o de portadoras de personalidade SPS, do inglês Sensory Perception Sensitivity -Percepção de Sensibilidade Sensorial, em uma tradução literal, ou pessoas extremamente sensíveis, em uma passagem da expressão para o português de forma mais livre. A pesquisa foi publicada no jornal "Social Cognitive and Affective Neuroscience" (Neurociência Social, Cognitiva e Afetiva).


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Pessoas tímidas são lentas para se "aquecer" em eventos sociais

Esse traço de personalidade aparece em pessoas -que foram caracterizadas pelos cientistas que conduziram o estudo- com tendência a serem inibidas, que são lentas para se "aquecer" em situações sociais, que choram com facilidade, costumam fazer perguntas incomuns e têm pensamentos profundos.

Os resultados das observações desses indivíduos considerados altamente sensíveis mostrou que eles tendem a prestar mais atenção aos detalhes e possuem atividade maior em certas regiões do cérebro ao tentar processar essa informação visual do que aqueles que não entram nessa classificação.

Situações cotidianas incomodam mais os tímidos

No dia a dia, as pessoas tímidas, ou altamente sensíveis, como são descritas no estudo, optam por levar mais tempo até que tomem uma decisão. São mais conscientes de suas atitudes. Precisam de um tempo maior para si mesmas a fim de que possam refletir. Ficam facilmente entediadas com as conversas sobre assuntos banais.

Quando se compara o comportamento dos introvertidos com os indivíduos extrovertidos, eles se mostram mais incomodados pelo barulho e multidões. Se assustam com mais facilidade e são afetados mais fortemente pelo consumo de cafeína. Enfim, parecem sentir tudo à sua volta de forma mais intensa.

Segundo o entendimento dos condutores do estudo, a maior sensibilidade aos ruídos e a exacerbação dos efeitos da cafeína são danos colaterais pelo fato de os indivíduos com maior sensibilidade prestarem mais atenção nas coisas ao seu redor.


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Questionário e teste com foto classificou indíviduos do estudo

Para separar os participantes da pesquisa em sensíveis e não-sensíveis, foi utilizado, inicialmente, um questionário para avaliar o grau dos sentimentos de cada um em relação aos estímulos. Depois, os 16 indivíduos que participaram do estudo foram chamados a comparar duas fotografias de uma mesma cena.

Foi pedido que indicassem se houvera mudanças na cena. De acordo com as respostas sobre as alterações, se foram óbvias ou sutis, e a velocidade com que foram indicadas, os participantes foram classificados.

Enquanto os testes eram feitos, os pesquisadores mapearam a atuação do cérebro de cada participante com uma ressonância magnética funcional.

Pessoas consideradas sensíveis olharam para as cenas e perceberam diferenças sutis depois de um período de tempo mais longo. Mostraram significativa ativação de áreas do cérebro envolvidas na associação visual. Essas partes não são simplesmente usadas para visão em si, mas também para o processamento mais profundo das informações.

Outras espécies animais possuem indivíduos tímidos

Esse traço de sensibilidade ligado ao comportamento tímido não é exclusivo do ser humano. Ele já foi descrito por cientistas em mais de cem espécies incluindo moscas de frutas, peixes e macacos. Ainda que alguns defendam que isso possa proporcionar alguma vantagem na cadeia evolucionária por proporcionar seres que pensam mais antes de agir e, dessa forma, podem tomar decisões mais acertadas, a maioria dos biólogos acredita que não pode existir dois tipos de personalidade consideradas bem-sucedidas na cadeia evolutiva. De acordo com essa linha de raciocínio, os tímidos estariam em desvantagem se comparados com os dominantes extrovertidos, mais propensos a se reproduzir.

Em alguns casos, a timidez pode ser extremada e levar ao desenvolvimento de algumas patologias. Uma das mais conhecidas é a fobia social, que faz a pessoa a se isolar do convívio com outros indivíduos.

Ainda que a timidez seja uma característica da pessoa, ela pode ser alimentada ou combatida de acordo com o ambiente. Violência na família, pais muito exigentes ou super protetores podem reforçar a tendência dos filhos à introversão.

Há tratamento psicológico para a timidez com o treinamento de técnicas para conversação e inserção em grupos e situações sociais que podem ajudar o indivíduo a superar algumas barreiras.