Os problemas criados por "pais helicópteros"

Pais coruja, superprotetores, superpais. Os nomes mudaram ao longo do tempo, porém, a prática é a mesma. Agora, a nomenclatura da vez é "pais helicópteros". Esse é o termo que especialistas em educação infantil dos Estados Unidos passaram a usar para designar os pais e mães que exageram no acompanhamento das atividades de seus filhos. Ficam "sobrevoando" o tempo todo os seus pimpolhos, respondendo por eles, tomando decisões por suas crias e, dessa forma, impedindo que se desenvolvam como deveriam.

A defesa dos "pais helicópteros" é de que eles nada mais fazem do que zelar pelo bem-estar de seus filhos, garantir sua segurança, assegurar uma boa educação e, dessa maneira, permitir que possam, na idade adulta, atingir o máximo de seu potencial. Encontrar esse tipo de pais não é difícil. Eles são facilmente identificáveis nas reuniões de escola, nas atividades extra curriculares como aulas de inglês, dança, natação, teatro, festas de aniversário, sempre de olho em suas crias, monitorando cada interação da criança.

São fruto, principalmente, do medo criado pelos muitos casos de sequestro, pedofilia e tráfico de crianças. Aliado a isso, está também o aumento da competitividade do mercado de trabalho, que faz com que os pais tentem ao máximo direcionar suas crias em um mundo onde a competitividade acadêmica é cada vez mais forte desde os primeiros anos, o que ocasiona, naturalmente, um número maior de frustrações.

Termo foi cunhado no final dos anos 60

Apesar de sua popularização ter sido maior nas últimas décadas, o termo foi utilizado pela primeira vez em 1969 pelo psicoterapeuta israelense Haim Ginotti em seu livro "Parents & Teenagers" (País e Adolescentes). Em 2011, entrou para o dicionário como sinônimo de pais que são excessivamente focados em seus filhos, de forma quase obsessiva.

"Na primeira infância, um pai helicóptero é uma sombra constante para a criança. Sempre dirigindo seu comportamento. Nunca lhe permitindo um tempo sozinho", afirma a psicóloga Ann Dunnewold, especialista em relacionamento entre pais e filhos. Pai e mãe desse tipo asseguram que a criança tenha um certo tipo de professor, selecionam seus amigos, as atividades de que ela participa e interferem diretamente em seus trabalhos escolares.

Medo de fracasso e compensação podem gerar esse tipo de educação

De acordo com Dunnewold, são quatro os principais motivadores do surgimento desse tipo de pais. Um deles é o temor de que coisas ruins possam acontecer ao filho, como tirar notas baixas ou ser excluído de uma equipe na escola. Para evitar isso, eles se antecipam e intervêm. Os temores sobre o futuro são outra variável nessa equação. Com medo da economia e do mercado do trabalho, tentam proteger a criança evitando que ela seja ferida ou sofra decepções.

Outro aspecto importante é o próprio histórico dos pais. Se quando crianças eles se sentiram negligenciados, podem tentar compensar isso com seus filhos. E exageram na dose na tentativa de remediar a deficiência que sentiram na educação que receberam.

O quarto motivo é a pressão da sociedade. Ao ver os pais dos colegas dos dos filhos se envolverem, eles se sentem compelidos a ter uma reação similar por acreditar que se não fizerem dessa forma serão maus pais.

Comportamento gera queda da autoestima da criança

Ainda que o comportamento possa ser gerado com as melhores das intenções, ele traz consequências negativas para as crianças. Uma das primeiras e mais facilmente detetável é a diminuição da confiança e autoestima. Ao monitorar todas as atividades do filho e tomar decisões por ele, a mensagem que o pai envia é de que não confia na criança e isso vai minando sua capacidade de tomar decisões, ter seus acertos e erros.

Paralelamente, as habilidades de enfrentamento da criança não são desenvolvidos como deveriam. Afinal, o pai estará sempre lá. Dessa forma, se não conseguir prevenir o acontecimento de um problema acabará resolvendo a situação pelo filho evitando com que ele lide com a perda, decepção ou fracasso, o que seria necessário para seu crescimento. Isso faz com que as crianças se sintam menos competentes em enfrentar as tensões naturais da vida por sua própria conta e acaba aumentando os níveis de anxiedade e depressão.

Com o passar dos anos e tendo sua vida sempre facilitada pela ação dos pais, as crianças começam a desenvolver o que se chama de "senso de direito". Ou seja, na vida social, acadêmica ou esportiva acreditam que a prioridade a premiações, promoções ou melhores notas é delas.

O mais grave problema, fruto do conjunto dessas ações, é que as habilidades de convivência com as situações cotidianas são subdesenvolvidas. As crianças são incapazes de enfrentar os problemas e encontrar soluções. É uma geração de adultos crianças que sempre ao se deparar com um obstáculo recorre aos pais em vez de tentar resolver a questão.

É preciso deixar que os filhos aprendam com os erros

Para os pais e mães que se enquadram na classificação de "pais helicópteros" ou demonstram tendências de seguir nessa linha e gostariam de mudar o comportamento visando evitar que seus filhos tenham problemas de relacionamento quando adultos, os especialistas oferecem algumas dicas sobre como não deixar que isso aconteça. Os conselhos para educar sem exagerar são os seguintes:

1) Uma vez é suficiente: lembre seus filhos das atividades que devem ser realizadas. Mas apenas uma vez. Se você ficar insistindo em dizer sobre as responsabilidades, ele nunca irá assumi-las e deixará sempre ao seu encargo ficar preocupado com os compromissos que são dele.

2) Deixe pra lá: o fato de você ter visto um erro de seu filho não significa que tem a obrigação de corrigí-lo. Se ele esqueceu a lição de casa e você correr para levá-la até a escola, o provável é que esse fato se repita muitas vezes. Deixe que a criança arque com as consequências de seus erros e pague por eles. Assim, terá mais cuidado nas próximas vezes.

3) Cada um com sua conta: não assuma a responsabilidade pelas ações de seus filhos. Se ele cometeu um erro, não se desculpe por ele. Faça com que a criança assuma o que fez e se desculpe pelo erro.

4) Deixe que eles falhem: a falha de seu filho não é sua falha. Pelo contrário. Eles precisam falhar para aprender a lidar com o fracasso.

5) Experiência própria: a função dos pais, naturalmente, é proteger os filhos. Todavia, as experiências de aprendizagem muitas vezes são mais poderosas do que a teoria. Deixe-os aprender com elas. Isso não significa que você deva abandoná-los à própria sorte. Esteja lá para acompanhá-los, conversar e confortá-los.