Gay: estigma e discriminação

Em pleno século 21, ainda se pode observar muitos casos de homofobia e discriminação – muitas vezes violenta – motivadas pelo ódio contra pessoas com uma orientação sexual alternativa – gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais.

Os gays ainda são vistos, em algumas sociedades, como pessoas defeituosas, pervertidas e até perigosas. Segundo o jornal inglês The Guardian, ser lésbica, gay, bissexual ou transgênero é ilegal em quase 80 países, e ao menos em cinco deles, os homossexuais correm o risco de ser condenados à morte. “Mais de 2,7 bilhões de pessoas vivem em países onde ser gay é um crime”, alerta o jornal.


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Entretanto, os homossexuais têm conseguido grandes vitórias ao redor do mundo graças à luta pelos seus direitos, seja através de passeatas, representação política, associações civis e governamentais e outras iniciativas, que têm como objetivo valorizar a diversidade sexual na sociedade.

Define-se homossexualismo como o interesse sexual por pessoas do mesmo sexo. O homossexualismo feminino é conhecido como lesbianismo, por causa da ilha grega de Lesbos. Segundo a mitologia, a poetisa Safo liderava um grupo de mulheres na ilha e seus poemas continham versos bastante afetuosos voltados a outras mulheres.

Na Grécia antiga, o homossexualismo era não apenas aceito com encorajado, inclusive considerado uma forma de amor superior à heterossexual. A obra do filósofo e intelectual francês Michel Foucault, que era assumidamente gay, é considerada uma referência no estudo de como a homossexualidade era vista na sociedade grega.

Entretanto, para a cultura judaico-cristã, o homossexualismo foi considerado um pecado, havendo trechos no antigo e no novo testamento que condenam sua prática, o que leva muitas pessoas comuns e autoridades no Ocidente a tomar medidas para “erradicar” o homossexualismo.

Recentemente, foi muito criticado no Brasil o projeto do deputado e pastor evangélico Marco Feliciano, que propõe a “cura gay”. A proposta tem a finalidade de permitir aos psicólogos realizar tratamentos para reverter a homossexualidade.

A medida causou revolta em todo o país, por considerar o homossexualismo uma doença, conceito há muito abandonado por muitas democracias ocidentais. Em algumas esferas da sociedade brasileira, entretanto, o homossexualismo ainda é visto como um transtorno mental ou pecado.

Contribuição de Freud e homossexualismo como doença

O psiquiatra alemão e pai da psicanálise, Sigmund Freud, é citado como uma das grandes referências no estudo do homossexualismo. Ele considerava que a criança passava por um processo de amadurecimento sexual em que tinha que se desligar da mãe e do pai e identificar-se com as características sexuais de seu próprio sexo, mas que algumas pessoas não conseguiam realizar a transição – no caso dos meninos, eles não conseguiam desligar-se da mãe e identificavam-se com ela, assumindo características femininas.

O oposto aconteceria com as meninas – após a fase fálica, ela teria que trocar o clitóris pela vagina como órgão sexual e também canalizar seu amor da mãe para o pai. De acordo com a teoria freudiana, problemas nesse processo também fariam com que a mulher assumisse uma forma virilizada diferente da fase fálica infantil.

Os estudos freudianos conseguiram retirar o homossexualismo da arena de discussão moral e religiosa, mas o transformou em um tipo de doença psíquica/emocional – homossexuais seriam pessoas que não amadureceram de maneira adequada ao longo do processo de maturação sexual normal do ser humano.


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Essas ideias nortearam muito do que se pensava sobre a homossexualidade ao longo do século XX. Para se ter uma ideia, até o início da década de 70, os Estados Unidos consideravam os gays como pacientes psiquiátricos, e alguns eram até presos sem cometer crime algum. A perseguição e discriminação contra os homossexuais levou e ainda leva muitos gays a não assumir seu direcionamento em público, vivendo uma vida dissimulada ou dupla.

Durante as últimas décadas do século, entretanto, observou-se que essas teorias se mostravam antiquadas, sendo o homossexualismo hoje considerado uma variação comum dentre o complexo leque da sexualidade humana.

Homossexualidade e AIDS

A discriminação aumenta também a carga de culpa e vergonha que os gays sentem em relação a sua natureza sexual. Muitos refugiavam-se em uma espécie de ghetto – boates, clubs e cinemas gays em que realizavam sexo promíscuo e sem proteção, o que fez com que doenças transmissíveis, como a AIDS, fossem muito ligadas ao homossexualismo. No início da década de 80 e durante muitos anos, a AIDS foi conhecida como “doença dos gays” ou “câncer gay”, pelo grande número de homossexuais infectados.

Isso fez com que o preconceito aumentasse mas também gerou um grande movimento social no sentido de aumentar a inclusão, combater a homofobia, valorizar a diversidade e fazer com que os gays não tivessem mais que carregar o estigma de “pecadores”, doentes ou falhos, isolando-se em bolsões e fazendo parte de grupos de risco.


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As famílias passaram a aceitar mais seus filhos e filhas homossexuais, e diminuiu-se bastante a segregação antes comum em vários países. Como resultado, as taxas de gays infectados com o HIV caíram drasticamente. Aumentou também a qualidade de vida dos homossexuais, que, em alguns espaços sociais, podem viver abertamente suas escolhas e ter uma vida plena, livre do preconceito.

Homossexualidade no cinema

Alguns filmes emblemáticos sobre a causa gay são Filadélfia (1993), estrelado por Tom Hanks, que conta a história de um advogado demitido por ter o vírus do HIV, e Milk (2008), que fala sobre a luta política de Harvey Milk, o primeiro político abertamente gay eleito nos Estados Unidos, na década de 70. Assassinado pouco depois de ser eleito, ele ajudou a comunidade gay de San Francisco a ampliar seus direitos e a aumentar sua representação política no país.

O filme The Normal Heart (2014), estrelado por Julia Roberts, Jim Parsons e Mark Ruffalo, fala também sobre o sofrimento dos homossexuais em relação à AIDS e ao preconceito.

O Segredo de Brokeback Mourntain (2005), estrelado por Heath Ledger, também causou impacto no mundo, ao mostrar o drama silencioso vivido pelos gays nascidos no machista e homofóbico oeste rural americano.

Sobre o lesbianismo, o filme Meninos Não Choram (1999), estrelado por Hilary Swank, também foi pioneiro, mostrando abertamente cenas de amor entre duas mulheres no cinema. Swank recebeu o Oscar pelo papel, e o filme foi muito elogiado pela sua sensibilidade em tratar do tema.

Inúmeros outros filmes tratam da homossexualidade, seja como tema principal ou como parte importante do enredo, o que tem aumentado a conscientização do público em geral sobre os direitos gays e desmistificado o relacionamento gay em todos os seus aspectos. Assim como o cinema, outras áreas artísticas, como as artes plásticas, o teatro, a música e a literatura, também são influenciadas pelo movimento homossexual.

Dia Internacional do Orgulho Gay

Em 28 de junho, comemora-se em todo o mundo o Dia Internacional do Orgulho Gay. Durante esse dia, são realizados eventos, passeatas, desfiles, lançamentos, palestras e outras iniciativas oficiais ou não que têm o objetivo de aumentar a conscientização da sociedade em relação aos direitos dos homossexuais. Um dos símbolos da comunidade LGBT (sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais) é a bandeira com as cores do arco-íris, quase sempre presente durante grandes eventos.

A Parada Gay também é um grande momento do calendário político e de eventos em vários países. Milhões de pessoas vão às ruas festejar e demonstrar seu apoio à causa gay em todo o mundo. São famosas as paradas gays de Nova York, nos Estados Unidos, e de São Paulo, no Brasil.


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Homossexualismo no mundo animal

Um dos maiores argumentos das pessoas que combatem o homossexualismo é de que ele não existe na natureza. Na realidade, os animais selvagens apresentam comportamento homossexual, bissexual e heterossexual, assim como os seres humanos.

Um estudo realizado em 1999 pelo pesquisador Bruce Bagemihl, causou polêmica ao revelar que aproximadamente 1,5 mil espécies de animais, de mamíferos de grande porte (como elefantes) a vermes, apresentam comportamento homossexual, bem documentado em 500 delas.

Leões, girafas, bisões e galos-da-serra são algumas das espécies cujo comportamento gay é bem documentado. No caso dos galos-da-serra, observa-se um nível de até 40% de homossexualidade entre os machos. Entre os chimpanzés-bonobos, observa-se uma alta taxa de atividades sexuais entre duas ou mais fêmeas. Os animais que apresentam comportamento homossexual não são ostracizados nem discriminados pelos demais, ao contrário do que acontece em sociedades humanas.

Segundo a revista Mundo Estranho: “não se trata apenas de relações 'extra-conjugais'. Alguns animais formam casais homossexuais que passam a vida toda juntos, chegando ao ponto de criar filhotes doados por outros casais heterossexuais”.

Quais as sociedades mais preconceituosas e quais as menos preconceituosas?

Países africanos, alguns países asiáticos, países árabes e de cultura muçulmana são altamente homofóbicos e ser gay nesses locais pode significar um grande risco de prisão, tortura, estupro (em alguns países africanos, acredita-se que se pode “curar” uma lésbica através do estupro) e morte. Geralmente, esses preconceitos têm raízes religiosas e sustentam-se sobre hábitos e crenças tradicionais.

O preconceito e a homofobia estão também bastante ligados à miséria e a baixos índices de educação, sendo mais comuns e intensos em países em desenvolvimento, mas também ocorrem em países e regiões mais desenvolvidas do mundo.

Grandes conquistas dos gays

Em alguns países, a lei aprova e assegura aos gays os direitos de casamento, adoção, igualdade no ambiente de trabalho, proteção contra atos homofóbicos (neles, a homofobia é considerada um crime), entre outros direitos civis. Dentre esses países, podemos citar o Canadá, Nova Zelândia, Bélgica, França e Uruguai (único representante da América Latina na lista). Países como o Reino Unido, a Noruega, Suécia, Dinamarca, Finlândia e muitos outros, garantem proteção contra a discriminação, direito de casamento e adoção, dentre outros direitos.

No Brasil, está em discussão no congresso a lei que transforma homofobia em crime, assim como debate-se muito a legalização do casamento gay (casais gays já podem se casar no civil no país). Há precedente aberto para casais gays que queiram adotar um filho, mas o processo ainda esbarra no preconceito.