O barbeador seguro e o barbeador elétrico

Para tornar o barbear seguro, confortável e fácil, alguém teria que criar um conceito completamente novo de instrumento para barbear. Esse alguém acabou sendo um homem chamado King Gillette.

A idéia de Gillette foi brilhante na sua simplicidade. Sua meta era criar uma lâmina de metal pequena e barata que pudesse ser afiada em uma fábrica e depois jogada fora quando ficasse cega. Na patente de número 775134, Gillette a descreveu assim:

    "o objetivo principal da minha invenção é oferecer um barbeador seguro que não  precise ter a sua lâmina afiada e lapidada".
Fazendo isso, Gillette atingiria três metas:
  1. ele eliminaria completamente o tédio e a "arte" do barbear manual, tornando o ato muito mais simples;
  2. ele substituiria a navalha reta perigosa pelo "barbeador seguro", um dispositivo com o qual é quase impossível se machucar;
  3. ele acabaria criando um dos maiores modelos de negócio já pensados. Milhões de pessoas viriam a se barbear e usariam uma das lâminas de Gillette a cada semana, sendo assim, ele ganharia um bom dinheiro.


Imagem cedida por U.S. Patent Office
Barbeador seguro de Gillette

A parte difícil foi afiar a lâmina em uma fábrica. A idéia de Gillette era pegar aço fino e enrolado, estampá-lo com pequenas formas retangulares e então afiar as margens. Isso pode parecer bem simples hoje em dia, mas na época nunca tinha sido feito. Houve dois problemas que precisaram ser solucionados:

  • endurecer o aço para que mantivesse uma margem afiada. Aquecê-lo a cerca de 1000ºC e depois resfriá-lo faz com que endureça. O metal fino das lâminas de Gillette tinha uma tendência a empenar, porque esfriava muito rápido e de forma desigual;
  • afiar a margem de um pedaço de metal fino e pequeno.
Esses dois problemas acabaram sendo bem mais difíceis de solucionar do que o previsto. Na verdade, Gillette levou 6 anos tentando até que ele e um engenheiro chamado William Nickerson conseguiram fazer o processo funcionar. O problema do aquecimento foi originalmente resolvido colocando as lâminas entre pedaços mais grossos de um metal que se aquecia lentamente durante o processo de aquecimento e resfriamento. O segundo problema foi solucionado por melhoras nos níveis de automação. As primeiras lâminas de barbear produzidas por Gillette eram afiadas quase que complemente à mão. 

O resto, como dizem, é história. Quando a Proctor and Gamble comprou a Gillette em 2005, pagou mais de US$ 50 bilhões pela companhia.

O barbeador elétrico


Imagem cedida por Amazon
Um barbeador Norelco moderno
Gillette introduziu seu sistema de barbear em 1901. No final da Primeira Guerra Mundial, em 1919, o ato de se barbear tinha se tornado bastante popular nos Estados Unidos. As barbas foram postas de lado e a aparência bem barbeada era praticamente exigida em todos os homens.

Então, em 1928, o ato foi reconceitualizado novamente por um homem chamado Jacob Schick. Schick entrou no ramo de barbeadores inventando um sistema para trocar a lâmina do barbeador sem precisar tocar na lâmina (o precursor dos aparelhos manuais de barbear). No entanto, a meta final era eliminar o creme de barbear e a água, criando um sistema de barbear a seco. Para isso, ele inventou o barbeador elétrico.

O primeiro problema de Schick foi de ordem criativa: ele precisaria "ver" o barbear de um modo completamente diferente. Até Schick inventar seu barbeador, a barba era sempre feita com uma lâmina que cortava como se estivesse fatiando. A lâmina tinha que ser afiada o suficiente para cortar os pêlos. O barbeador elétrico de Schick, por outro lado, usaria o conceito que está por trás das tesouras. O pêlo seria seccionado.

Se você realmente tentar se barbear com uma tesoura, vai logo perceber que isso não funciona (nem mesmo com uma minúscula tesoura de manicure). Não se consegue chegar suficientemente perto da pele com uma tesoura. Essa é a segunda área de inovação de Schick. Com um barbeador elétrico, um pedaço de metal incrivelmente fino, perfurado, chamado de chapa perfurada é o que realmente toca a pele. Os pêlos entram pelas perfurações no metal e, então, são cortados por uma lâmina no outro lado da chapa. As lâminas em um barbeador elétrico podem oscilar para frente e para trás (como no modelo original de Schick) ou podem girar (como no modelo da Norelco).


Imagem cedida por Japur, Stock.xchng
A chapa perfurada de um barbeador elétrico

Depois de ter dado um novo conceito à idéia do barbear, Schick se deparou com outro problema. Os motores elétricos nos anos 20 ainda não tinham sido diminuídos até o ponto de caberem dentro de um aparelho portátil. No primeiro modelo de Schick o motor (do tamanho aproximado de uma manga) ficava dentro de um estojo. Esse motor se ligava ao cabeçote de barbear através de uma haste condutora flexível. Hoje, esse modelo parece completamente ridículo. No entanto, não havia realmente outro jeito tendo em vista os motores disponíveis na época.

Contudo, os motores estavam encolhendo e tudo que Schick teve que fazer foi esperar. Em 1931 ele lançou seu primeiro barbeador elétrico portátil completo, com um pequeno motor interno.